Valorização do ensino nas universidades

novembro 7th, 2012

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LIÇÕES DO MELHOR PROFESSOR QUE CONHECI

julho 11th, 2012

Aos 75 anos, morreu na semana passada, vítima de uma parada cardíaca, Almir Massambani, docente de física desde 1962 na USP de São Carlos. Seu nome é pouco conhecido, a não ser por seus ex-alunos.
Almir foi um professor de verdade. Não era um cientista, fez um doutoramento porque a USP exigiu, mas o que ele gostava mesmo de fazer era de ensinar, conviver e amar seus estudantes. E era amado por eles. Fazia questão que seus alunos aprendessem o que estava ensinando.
Era professor por excelência, pois o que o motivava e preocupava era o sucesso do aluno, não o seu próprio – figura rara nas universidades de hoje, pois o bom docente que não pesquisa tem pouquíssimos mecanismos de valorização e promoção.
Formar bons profissionais e novas lideranças pode exigir produção, aplicação e divulgação de novos conhecimentos, mas para ensinar bem é preciso vocação e preparo específico. Caso contrário, essas instituições não deveriam ser universidades, mas centros de pesquisa.
O que mais vejo nos meus estudos sobre evasão: a pouca atenção que se dá ao aluno ingressante é uma das maiores causas do abandono de cursos, como já provou Vincent Tinto, o maior especialista do mundo no assunto.
O que vemos mais é a nostalgia – por vezes revoltada – que os docentes demonstram com a qualidade dos alunos que recebem quando comparada à de épocas passadas. Isso é um fato na maioria dos lugares, mas temos que lidar com eles como são, buscando formas de fazer com que eles acompanhem o curso.
Como eu sou natural do Rio (e Almir também era), sempre comentávamos que “jacaré” se pega no início da onda. No ensino, não é diferente. Se o aluno não pega a “onda” nos primeiros meses de aula, a onda passa e ele fica – ou seja, não acompanha a disciplina, é reprovado e, muitas vezes, desiste do curso. Uma perda para ele, para a instituição e para a sociedade como um todo, pois o país fica mais pobre!
Almir aplicou esse princípio ao enfrentar uma turma problemática no primeiro ano do nosso Instituto de Física de São Carlos. Sentou-se com a turma e quis entender qual seria o ponto correto de partida – não aquele que está nos livros, mas aquele que a turma poderia acompanhar.
Explicou o que precisariam saber para poder iniciar a disciplina, orientou a cada um para cobrir as lacunas por um mês, e, a partir daí, iniciou o curso propriamente dito. Sucesso absoluto, índice de reprovação baixíssima.
Hoje o querido Almir seria o que se chama “coach”, figura cada vez mais valorizada nos processos de formação intelectual, artística ou esportiva.
Quando elogiado, perguntava: “Não é obrigação do professor fazer o aluno aprender?”. Esse era o Almir. Um grande professor, o melhor que conheci. E um grande amigo.

Artigo publicado na Folha de São Paulo – Tendências / Debates
29 de maio de 2012

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Apresentação CONFEA

junho 27th, 2011

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DESCOBRINDO VOCAÇÃO

junho 16th, 2011

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O dinossauro-zebu
Edição 283 – Mai/09


A liberdade artística permite colocar juntos o Uberaba-titan e uma vaca zebu, sem ligar para os milhões de anos entre eles. O lugar é o mesmo, só que, no tempo dos dinossauros, a região era seca, quase desértica

Na edição de julho do ano passado, a revista inglesa Palaeontology traz, num artigo de 20 páginas, assinado por um cientista brasileiro e um argentino, a informação da descoberta do Uberabatitan ribeiroi. O local da descoberta está no nome – Uberaba, Minas Gerais. Faltou falar de uma coincidência incrível: o dinossauro gigante do Brasil foi encontrado na formação geológica das terras da mesma fazenda – Fazenda Cassu – onde se fez há 102 anos, quer dizer, em 1906, a primeira exposição de zebu em nosso país, exposição essa que deu origem à famosa e importante ExpoZebu, que se realiza todo mês de maio em Uberaba.

Por volta de 1906, nosso gado era todo de origem europeia. No clima brasileiro e, mais ainda, nas pastagens nativas de má qualidade, esse gado tinha definhado a ponto de uma vaca criadeira pesar 140 quilos aos cinco anos. Hoje, com o zebu, um garrote de dois anos – como se deu com Gero, da Fazenda Nova Índia – chega, em condições especiais, a mil quilos em dois anos. A transformação do zebu no boi brasileiro – hoje, de 80% a 90% de nosso rebanho carrega sangue predominante de zebu – teve, nessa primeira exposição da Fazenda Cassu, um de seus marcos históricos mais significativos. Usando sangue de nelore, gir e guzerá, que buscava diretamente na Índia, a Fazenda Cassu queria formar uma raça de ‘zebu nacional’ (como os americanos acabaram fazendo com o brahman) que fosse o mais pesado dos zebus. Essa raça devia chamar-se induberaba, mas, na hora do registro no Ministério da Agricultura, o nome passou para indubrasil.

desco

Outra coincidência: mais de 60 anos atrás (como veremos logo adiante) foi encontrado o primeiro dinossauro de Minas (um parente do Uberabatitan, ou quem sabe ele mesmo) num desvio ferroviário na própria Fazenda Cassu. Duas coincidências, mas que não são as únicas.

O anúncio da descoberta do Uberabatitan (‘titan’ é uma palavra grega que significa gigante) se deu na Casa da Ciência da Universidade Federal do Rio de Janeiro, dia 24 de Setembro de 2008. Foi notícia de destaque em todos os telejornais do dia e ganhou primeira página nos jornais impressos do dia seguinte, além de 10 mil citações na internet.

No Jornal nacional, da TV Globo, no dia do anúncio, Willian Bonner deu assim a notícia: ‘Uma réplica do maior dinossauro já descoberto no Brasil foi apresentada hoje no Rio’. Aparecem imagens do esqueletão montado para esse acontecimento com a voz da repórter Sandra Passarinho: ‘Um dinossauro desse tamanho no Brasil só se via em filme. Ao vivo é outra coisa’. Surge na tevê o rosto de uma jovem, possivelmente estudante, olhando o bicho e, de certa forma, confundindo as coisas: ‘Estou deslumbrada! Ele foi o começo de tudo, né?’.

Agora a repórter Sandra está diante da câmera: ‘O gigante de Uberaba faz dessa cidade mineira a ‘capital nacional do dinossauro’. Essa descoberta é resultado da maior escavação de fósseis já feita no Brasil. A reportagem segue com dimensões e características do gigantão. Para calçar sua matéria em fontes dignas de respeito, Sandra Passarinho entrevista duas pessoas: o professor Ismar de Souza Carvalho, paleontólogo da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autor brasileiro do artigo que revelou o achado do Uberabatitan – e Luiz Carlos Borges Ribeiro, este um geólogo de Uberaba cuja presença, naquele ato, é a terceira grande coincidência em volta do dinossauro gigante: Luiz Carlos cresceu na mesma casa do homem – coronel Zé Caetano – que fez sozinho (e repetiu por cinco anos seguidos), em sua Fazenda Cassu, a exposição de zebu de Uberaba, até que, em 1911, ela passou a ser feita pela prefeitura e depois (a partir de 1934) pelo que é hoje a ABCZ. Coronel Zé Caetano é seu bisavô.

 

Osso do uberabatitan que a máquina de terraplanagem quebrou ao meio

‘É emocionante a ideia de que eu, quando menino, andei a cavalo, ou a pé, no mesmo lugar onde viveram os nossos titans, que são hoje o meu assunto principal…’, diz Luiz Carlos. O geólogo Luiz Carlos não estava no lançamento do Uberabatitan no Rio por causa da coincidência de ser bisneto daquele bisavô nem por nenhuma questão de família. Estava lá simplesmente porque ao maior dinossauro brasileiro foi dado seu nome.

De fato, a identidade do bichão que chegava a ter 20 metros de comprimento (5 a 6 de altura, peso de 15 toneladas ou mais) é Uberabatitan ribeiroi. ‘Uberaba’ para indicar o lugar onde foi achado; ‘titan’ por se tratar de um titanossauro (esses dinos herbívoros de pata de elefante e pescoço comprido) e ‘ribeiroi’, em homenagem a Luiz Carlos Borges Ribeiro, que foi quem encontrou, escavou e recolheu os fósseis que vieram a constituir o maior dinossauro brasileiro.

Aí pinta outra grande coincidência: em 2004 (dois anos antes do primeiro centenário da exposição pioneira de 1906 na Fazenda Cassu), as obras de duplicação da Rodovia Uberaba-Uberlândia tiveram de fazer um corte nas encostas da Serra da Galga, na altura do Posto Cachucha. ‘Uma tarde’, conta Luiz Carlos, ‘eu vinha de Uberlândia quando, logo após o posto, notei ainda presa na rocha uma vértebra de dinossauro. Nítida, inconfundível. Parei admirado, procurei o responsável, acertei logo o jeito de coletar aquele material…’ Luiz Carlos era então (e ainda é) chefe do Museu Paleontológico de Peirópolis, mais conhecido como Museu dos Dinossauros, sendo Peirópolis um distrito rural de Uberaba na rodovia para Belo Horizonte, a 15 minutos da cidade. Quando fala da descoberta do Uberabatitan, ele vacila, suspira, entristece.

Na década de 40, a primeira parada da Mogiana, que, saindo de São Paulo, passava por Uberaba, seguia para Uberlândia (e daí para o sertão de Goiás), era na estação Mangabeira, nome esse devido à Fazenda Mangabeira, então parte da Fazenda Cassu do coronel Zé Caetano.

Assim que saía de Uberaba, o trem cruzava o rio e passava perto da sede da Fazenda Mangabeira, daí tendo de vencer a serrinha, uma subida íngreme, já no contrapé da Serra da Galga. Na ida, quase que o vapor não dava; na volta a composição ganhava velocidade perigosa. Luiz Carlos puxa na memória: ‘Me lembro da minha mãe contar de um trem que descarrilou na serrinha e assombrou o povo da época. O trem ali era perigo constante’. A Mogiana decide então, em 1945, fazer um desvio, para a linha de ferro ficar em terreno mais plano. Quando começa o serviço de dinamite para abrir caminho na rocha (uma continuação da Serra da Galga), ainda nas terras de Zé Caetano, a equipe da ferrovia dá com estranho achado: uns ossos enormes, petrificados. ‘Então acontece um fato cheio de brio e de honra, como a gente vê muito pouco hoje em dia’, comenta Luiz Carlos. ‘O engenheiro responsável manda recolher aquele material e providencia para que algum especialista tome conhecimento.’ (Normalmente, o que ocorre no Brasil quando se encontra material histórico em obras de estradas, pontes, construções, hidrelétricas é que os responsáveis procuram esconder o achado, ‘para evitar burocracia e amolação’. Isso é crime contra a ciência, contra o país e contra o direito à cultura de um povo.)

 

Luiz Carlos (à dir.) e dois companheiros da equipe de escavação

A notícia do encontro daqueles ossos na ferrovia em Uberaba cai nas mãos de um americano-gaúcho (de família americana, formado nos Estados Unidos, mas nascido em Santa Maria, RS) que o governo Vargas tinha ido buscar na Universidade de Harvard para criar a legislação de proteção ao patrimônio fóssil nacional, Llewellyn Ivor Price. Não podia ter caído em mão melhor. Price providencia sua ida a Uberaba e ali não só recolhe e embala material para ser mandado para o Rio de Janeiro (onde está até hoje) como instala depois de dois anos, em Peirópolis, uma base de estudos dos fósseis. Peirópolis foi escolhida porque ali – além da estação de trem, que era o principal meio de transporte de então – havia concentração de caieiras, e o trabalho de extrair cal implica a exposição (e quase sempre destruição) de material paleontológico incrustado na pedra calcária. Em seu artigo de ‘lançamento’ do dinossauro gigante de Uberaba na revista Palaeontology, diz o professor Ismar Carvalho: ‘Os titanossauros no Brasil começam a ser conhecidos com esse trabalho de Price e com as peças que ele recolhe na Serra da Galga (nas obras de desvio da linha de ferro)’.

A abertura do novo traçado da Mogiana nas terras de Zé Caetano ia trazer surpresa ainda maior, conta o geólogo Luiz Carlos Ribeiro. ‘Numa das visitas de Price às obras da ferrovia, ele fica sabendo que os funcionários estavam jogando bocha com uma pedra branca e redonda que haviam encontrado num corte da rocha. Price pede para ver a bocha: era um ovo de dinossauro, já sem casca por causa dos choques. Foi o primeiro ovo de dinossauro encontrado na América do Sul.’ Luiz Carlos raciocina: ‘Não dá para afirmar, mas não é impossível tratar-se de um ovo do Uberabatitan que a gente veio descobrir mais de 60 anos depois…’.

(Em outras ocasiões foram encontradas ninhadas com vários ovos, alguns mantidos intactos, tornando-se Uberaba a única região a ter ovos inteiros de dinossauros no Brasil.)

Luiz Carlos Borges Ribeiro ficou órfão aos cinco anos, sua mãe casou-se de novo, com um cunhado, pessoa delicada e cortês. Teve infância normal. Certo dia a família recebeu a visita de um amigo, o físico Roberto Lobo, do Instituto de Física de São Carlos (posteriormente o mais jovem reitor da USP – Universidade de São Paulo), e o cientista manifestou interesse em conhecer Peirópolis.

‘Com 14 anos nessa época’, conta Luiz Carlos, ‘só tinha ouvido falar de dinossauro em filme. Geologia nem sabia o que era e também não tinha ideia de que Peirópolis tivesse alguma importância…’ Por gosto ou não, acabou acompanhando o físico Roberto Lobo na ida a Peirópolis, viu algumas peças com o senhor Langerton Neves, que havia trabalhado com Price nas escavações por mais de 15 anos, conheceu pessoas, ouviu histórias e ficou marcado.’Quatro anos depois, na hora de escolher o vestibular, veio uma luz: Geologia!’

Luiz Carlos fez Geologia na Universidade Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte, formou-se no começo dos anos 80. Seu primeiro trabalho foi com petróleo, depois com pesquisa de ouro.

Enquanto fazia sua vida atrás de morros e pedras – sempre encantado com as explicações da geologia sobre a formação da terra e as camadas de rocha que constituem o solo -, acompanhava as notícias que mostravam como Peirópolis – já sendo chamada de Parque Nacional dos Dinossauros – estava se tornando conhecida. Em 1988 vem a ideia de se criar um centro de pesquisas, e nele um museu de dinossauros: a ideia se torna realidade em 1991, já com uma miniestrutura para fazer escavações e objetivos de longo prazo. ‘Aí veio outra vez a mão do destino!’, diz Luiz Carlos. ‘Por exclusão, acabei nomeado diretor de Peirópolis.’

Deu-se que, em 1992, para facilitar a Peirópolis fazer convênios com instituições oficiais (tipo universidades, órgãos do governo, etc.), era preciso que o Núcleo Paleontológico fosse dirigido por um profissional especializado de nível superior. Dos três geólogos que havia então em Uberaba, só Luiz Carlos estava disponível. Sem saber, o geólogo uberabense dava então os primeiros passos rumo ao encontro do nosso dinossauro-zebu. Mas hoje, quando pensa nele, não esconde angústia e apreensão.

 

Um milhão de visitantes já percorreram o museu desde sua abertura, em 1992

Pouca gente faz ideia da dificuldade para funcionar um museu de dinossauro, ligado a uma prefeitura do interior. Por mais que Uberaba tenha tradição cultural e bolsões de riqueza, é uma cidade com problemas como qualquer outra de seu porte. Assim, manter um núcleo de estudos de paleontologia com verba municipal – avidamente disputada por reclamos de saneamento básico, estradas, asfaltamento, postos de saúde, casas populares – depende de muita sabedoria – e coragem -, principalmente do prefeito. Não faltam urubus para aconselhar o pior nem doses de olho gordo e mau agouro.

Com maior ou menor sofrimento, no entanto, o núcleo de Peirópolis foi sendo mantido. Nesse período de Luiz Carlos, o esforço foi sempre buscar recursos complementares em empresas, universidades, agências de fomento de pesquisa, na cidade, no país e até fora dele. Com isso, Peirópolis conheceu um avanço, obtendo, em certa medida, reconhecimento acadêmico e institucional. Não sem muito ardor.

Um amigo que o conhece bem diz do geólogo Luiz Carlos: ‘Ele é uma equação de três Ós e um A (LC = O3 + A). Os três Ós são de Objetivo, Obstinado, Oligopiônico. O A, de Ansioso’. Objetivo é a pessoa que sabe o quer e não enrola; obstinado, o que põe firmeza e tenacidade no que faz; ansioso, o impaciente, intranquilo, excitado. Mas e esse negócio de oligopiônico?!

Por causa da equação de três Ós e um A, Luiz Carlos – mais pelo A – tem dificuldade para relaxar e toma ansiolítico há bom tempo. Talvez por isso, e também porque faz parte de seu trabalho andar a pé e viver subindo em morros e pedreiras, ele é magro. Alto (1,83 metro) e magro. Vem daí o que seu amigo chama de oligopiônico, sendo oligopionia uma escassez de gordura. Apesar de magro, é alegre, risonho, disponível. Quando, porém, se fala da serra de onde saiu o Uberabatitan, o bom-humor acaba.

Para montar sua equipe de escavação em Peirópolis (além de cuidar do laboratório, do museu e do caprichado jardim da Praça dos Dinossauros), Luiz Carlos reforçou o pessoal que havia lá com gente que recrutou no meio rural. ‘Vários aqui são catireiros de bezerro ou retireiros, isso é vantagem. Povo que mexe com criação não estranha dureza.’

Carlos da Silva, o Carlinhos, lutou sempre com vaca de leite. Um dos mais experientes da turma, é assim uma espécie de ‘capataz’. Márcio Humberto, bem mais novo, tem um apelido que não deixa muita dúvida do que faz: Márcio Tatu. Tanto Carlinhos como Tatu participaram (ao lado de outros) do trabalho de escavação do que viria dar no dino gigantão de Uberaba.

 

Detalhe da exposição permanente do museu de Peirópolis

Conta Márcio Tatu: ‘Luiz Carlos veio com a notícia de um fóssil grande na rocha, na beira da rodovia; logo a gente organizou para ir atrás. No primeiro dia fomos quatro, mais o Luiz Carlos, numa Kombi. Levamos as ferramentas normais: ponteiro, alavanca, picareta, pá, enxada, carrinho de mão, martelinho de geólogo, espátula, pincéis, cola. Viagem perdida, a peça estava no alto da escarpa, a uns 18 metros, a gente só a alcançaria com corda, luva, cinturão, argolas, roldanas, enfim, equipamento de rapel, e isso a gente não tinha…’.

O próprio Márcio lembrou que o pessoal da Toca dos Dinossauros, ali mesmo em Peirópolis, dispunha de uma tralha de rapel para oferecer a turistas, Pedem emprestado. ‘Aí, sim, dependurado na rocha, deu para por a mão no osso que, embora tivesse sido quebrado pela escavadeira da obra, ainda era um fóssil imponente’.

Três operações básicas da escavação, segundo Tatu:

1. tirar a rocha de cima da peça para definir direito seu perfil;

2. fazer o ‘cogumelo’, quer dizer, recortar em volta com sobra de mais ou menos um palmo de cada lado;

3. deslocar o bloco de pedra onde o fóssil está incrustado.

Na hora de transportar, uma curtição: ‘A gente tinha uma caixa grande de madeira, retangular, acomodamos lá dentro o bloco com o fêmur, deu uns 70 quilos. Para não balançar, fizemos quatro alças de corda, uma em cada canto da caixa, e fomos em direção à Kombi no passo de quem estivesse carregando um caixão de defunto…’ Depois, já no museu, foi o trabalho de desempoeirar, limpar, classificar, para deixar as peças em condição de ser analisadas por especialistas. No caso das partes que vieram a constituir o dinossauro gigante, os professores que o estudaram foram um argentino – Leonardo Salgado, da Universidade de Comahue, em Neuquén, Argentina – e um brasileiro – Ismar de Souza Carvalho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Eles é que descreveram o fóssil, fizeram comparações, designaram gênero (novo), espécie (nova), botaram nome. Além de restos do Uberabatitan, a coleção do Museu de Peirópolis (sem falar do material que está no DNPM – Departamento Nacional de Produção Mineral, no Rio) inclui peças de outros dinos, crocodilos, tartarugas, peixes, rãs, conchas, dino-aves (dinossauros com penas), tudo com cerca de 65 milhões de anos. O professor Ismar Carvalho fala sobre o grupo de Peirópolis: ‘É uma competente equipe de escavação de dinossauros do Brasil, capaz de trabalho continuado e metódico. Talvez a única a operar anos a fio, todos os anos’.

O geólogo Luiz Carlos, quando pensa nisso, entra quase em depressão. A gente vai logo saber porque. Nesses primeiros meses de 2009, quando completa 17 anos à frente de Peirópolis, Luiz Carlos tem boa razão para ir para o museu todos os dias, e outra boa razão para voltar logo para casa. Aqui tem o choro de criança nova (a primeira) e no museu uma tarefa realmente enorme: montar em tamanho natural, com supervisão de um ‘paleoartista’ reconhecido, Carlos Scarpini, a réplica de nosso dinossauro gigante. Da cabeça à ponta do rabo, o maior dos três esqueletos dos dinos gigantes descobertos tinha cerca de 20 metros e mais de cinco de altura, quer dizer, não cabe no museu. ‘Foi viabilizado um edifício aqui em Peirópolis, da Rede Nacional de Paleontologia, e ali será erguido o esqueleto do Uberabatitan, talvez a maior instalação desse gênero no país. Os brasileiros vão ficar orgulhosos de ver o nosso gigante de pescoço comprido…’

Em uma ocasião, o Museu de Peirópolis esteve para fechar, apesar de seu custo fixo relativamente pequeno: R$ 15 mil.

(Algum tempo atrás saiu na imprensa que uma obscura professora de uma obscura universidade federal do Nordeste aposentou-se, ainda jovem, com cerca de 40 mil reais por mês – um salário seu dava para manter Peirópolis por quase três meses… E não se trata de um caso isolado – há numerosas outras aposentadorias ainda mais escandalosas tanto naquela com em outras repartições federais, e também no Judiciário, no Legislativo, nas autarquias, no Ministério Público, nas empresas estatais. Não devemos desanimar: um dia o Brasil se torna um país sério…)

Com ou sem aperto financeiro, a previsão é que a réplica do Uberabatitan possa ser inaugurada agora em maio, para coincidir com a festa anual do zebu. Daí ela poderá ser vista em Peirópolis, na Praça dos Dinossauros, a 15 minutos de Uberaba, ao lado do museu e de frente para uma ‘dino-arte’ do artista uberabense – especialista em escultura de cavalos, bois, jumentos, vaqueiros e agora, também, dinossauros – Northon Fenerich.

(Será essa sua uma escultura do dinossauro-zebu? De qualquer modo, não se trata do Uberabatitan – foi feita antes – e guarda o leiaute comum de um titanossauro de que existem mais de 50 tipos já descritos. Mas, naquele lugar, a escultura ganha um destaque especial.)

No dia da inauguração da réplica do dinossauro gigante brasileiro é quase certo que o geólogo Luiz Carlos veja razão para estar amolado, depressivo…

 

Os dinos nasciam de ovos pouco maiores que os de avestruz

Qual é a razão de tanta angústia? ‘É sina do geólogo comer poeira, estou acostumado…’, diz Luiz Carlos Borges Ribeiro, brincando com sua rotina de viver as horas do dia mexendo com assunto de rocha. Se não está no museu organizando alguma exposição ou plano de coleta de fósseis, está na faculdade onde dá aula de… geologia e paleontologia. Ultimamente, tem viajado, para fazer em vários estados consultoria em projetos de linhas de transmissão elétrica, gasodutos, usinas hidrelétricas, estações de tratamento de esgoto, de modo que essas instalações não destruam possíveis sítios de interesse da ciência. Parte do material salvado nessas obras no Brasil inteiro acaba indo para o Museu de Peirópolis, com que se espera, em algum tempo, ter lá uma bela amostra paleontológica de todo o país.

Aqui ele elogia: ‘Uma face do Brasil de primeiro mundo: antes de quebrar, destruir, ver onde uma linha vai passar e ajeitar o traçado para não prejudicar ninguém e certamente não pôr a perder um local precioso para os cientistas e para a herança cultural do país’.

Ele devia estar alegre com o fato de ter um dinossauro com seu nome – quem não estaria? E com a próxima inauguração de sua réplica, em tamanho natural, no chamado Parque Nacional dos Dinossauros.

Mais alegre ainda por ter podido, numa instituição pequena como o Museu de Peirópolis, fazer um trabalho que resultou em nosso dinossauro gigante e em reconhecimento acadêmico quase geral. No entanto, quando pensa nisso, suspira, quase se entrega. ‘Sabe por quê?’, pergunta ele. ‘Ao mexer em 0,1% do material da Serra da Galga e Peirópolis, a gente encontrou, entre outras coisas, o Uberabatitan e alguns estranhos dinossauros, inclusive um que parece ter penas. Você imaginou o que a gente pode encontrar nos outros 99.9%?’ Respira fundo: ‘Será que vamos dar conta?’.

#Q:O último dinossauro?:#
O Uberabatitan ribeiroi vem rodeado de proezas: é o maior dinossauro brasileiro, aquele cuja réplica foi feita com base em maior número de fósseis encontrados e também o que foi resultado da maior escavação paleontológica já realizada no Brasil. Outra característica daria ao gigantão de Uberaba um novo título: o de ‘o último dos dinossauros’.

Os dinossauros surgiram há mais de 200 milhões de anos, e dominaram o planeta até 65 milhões de anos atrás, quando, em função de uma catástrofe na Terra (possivelmente pela queda de um meteoro e mudanças climáticas globais), foram extintos, em meio a uma destruição de muitas outras espécies – cerca de 70% das viventes naquela época.

A situação geológica em que o Uberabatitan foi encontrado dá a ele uma idade de 65 milhões de anos, isto é, coincidindo com a data do desaparecimento dos dinos. Se essa datação for correta, pode-se dizer: após o Uberabatitan, nenhum outro dinossauro pisou o planeta.

Assim, ele tanto pode ser o último dos dinossauros como o mais novo deles…

 

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novos instrumentos do MEC

junho 3rd, 2011

Nota Técnica
REFORMULAÇÃO DOS INSTRUMENTOS DE AVALIAÇÃO DOS CURSOS DE GRADUAÇÃO DA EDUCAÇÃO SUPERIOR PARA OPERACIONALIZAÇÃO DO SISTEMA NACIONAL DE AVALIAÇÃO DA EDUCAÇÃO SUPERIOR – Sinaes
1. Introdução
O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), por meio da Diretoria de Avaliação da Educação Superior (DAES), coordenou no ano de 2010 e 2011 a revisão dos instrumentos de avaliação utilizados no Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes).
Esse trabalho surgiu em observância ao disposto na Lei n° 10.861, de 14 de abril de 2004, no Decreto n° 5.773, de 09 de maio de 2006, que define como uma das competências do Inep elaborar os instrumentos de avaliação e na Portaria Normativa n° 40, de 12 de dezembro de 2007, consolidada e publicada em 29 de dezembro de 2010, que atribui à Diretoria de Avaliação da Educação Superior – DAES/Inep as decisões sobre os procedimentos de avaliação.
A reformulação dos instrumentos foi realizada pela Comissão de Revisão dos Instrumentos de Avaliação, coordenada pela DAES, mediante solicitação da Comissão Nacional de Avaliação da Educação Superior (Conaes), em reunião ordinária. Por meio da Portaria Inep nº 386, de 27 de setembro de 2010, publicada no DOU em 28/09/2010, Seção 2, página 18, a comissão foi oficializada.
Esta Nota Técnica tem como objetivo informar sobre a reformulação dos Instrumentos de Avaliação de Cursos de Graduação e apresentar a proposta elaborada pela Comissão de Revisão dos Instrumentos, aprovada pela Conaes em reuniões realizadas nos meses de abril e maio de 2011.
Cabe esclarecer que o presente documento refere-se, exclusivamente, aos instrumentos de avaliação dos cursos de graduação. O instrumento de avaliação institucional está em elaboração.
2. Dos Instrumentos
2.1. O Sinaes tem como uma de suas finalidades aferir a qualidade para a melhoria da educação superior. A avaliação entendida como um processo exige uma medida operacionalizada por instrumento que possibilita o registro de análises quantitativas e qualitativas em relação a uma qualidade padrão.
Considerando que o processo de avaliação da educação superior é contínuo e necessário, a DAES exerce sua competência legal de reformular os instrumentos de avaliação de cursos de graduação, de acordo com o artigo 7º, IV e V, Decreto nº 5.773, de 09 de maio de 2006:
“Art.7º No que diz respeito à matéria objeto deste Decreto, compete ao INEP:
(…)
IV- elaborar os instrumentos de avaliação conforme as diretrizes da CONAES;
V- elaborar os instrumentos de avaliação para credenciamento de instituições e autorização de cursos, conforme as diretrizes do CNE e das Secretarias, conforme o caso”…
2.2. A reformulação dos instrumentos partiu de uma padronização inicial dos 12 instrumentos de avaliação dos cursos de graduação, uma vez que eles apresentavam diferentes critérios de análise.
Os instrumentos analisados foram:
Instrumento de Avaliação de Autorização de Curso de Graduação em Medicina;
Instrumento de Avaliação de Autorização de Curso de Graduação em Direito;
Instrumento de Avaliação de Autorização de Curso de Graduação Licenciatura e Bacharelado;
Instrumento de Avaliação de Autorização de Curso de Graduação Tecnológico;
Instrumento de Avaliação de Reconhecimento de Curso de Graduação em Medicina;
Instrumento de Avaliação de Reconhecimento de Curso de Graduação em Direito;
Instrumento de Avaliação de Reconhecimento de Curso de Graduação em Pedagogia;
Instrumento de Avaliação de Reconhecimento de Curso de Graduação Licenciatura e Bacharelado;
Instrumento de Avaliação de Reconhecimento de Curso de Graduação Tecnológico;
Instrumento de Renovação de Reconhecimento de Cursos de Graduação;
Instrumento de Avaliação de Reconhecimento de Curso a Distância;
Instrumento de Avaliação de Autorização de Curso a Distância.
2.3. Na padronização dos instrumentos de avaliação de cursos de graduação utilizaram-se como referência os indicadores de avaliação e seus descritores das respectivas dimensões, conforme o artigo 4º da Lei n° 10.861, de 14 de abril de 2004, em escala crescente de excelência de 1 a 5.
A padronização dos instrumentos considerou a abrangência e a flexibilização de modo a garantir, no processo avaliativo, um resultado fidedigno dos cursos de graduação e a melhoria da qualidade como referencial básico dos processos de regulação e supervisão da educação superior (Parágrafo único, Art. 2º da Lei n° 10.861, de 14 de abril de 2004).
Os instrumentos de avaliação dos cursos de graduação foram reformulados, respeitando as Diretrizes Curriculares Nacionais dos Cursos, os princípios e diretrizes do Sinaes e os padrões de qualidade da educação superior, resultando em:
Instrumento de Avaliação de Curso de Graduação Bacharelado, Licenciatura e Tecnológico – Presencial e EAD (Autorização, Reconhecimento e Renovação de Reconhecimento); NOVO
Instrumento de Avaliação de Curso de Graduação em Direito – Presencial e EAD (Autorização, Reconhecimento e Renovação de Reconhecimento); NOVO
Instrumento de Avaliação de Curso de Graduação em Medicina –(Autorização, Reconhecimento e Renovação de Reconhecimento). NOVO
2.4 Os critérios de análise que subsidiam o conceito atribuído ao indicador de todos os instrumentos estão colocados em escala crescente de excelência de 1 a 5. Consequentemente, com base na média entre os conceitos de cada indicador obtém-se o conceito da dimensão. As dimensões Organização Didático-Pedagógica, Corpo Docente e Infraestrutura permanecem, alterando-se os indicadores de modo a padronizar os procedimentos provendo sustentação aos conceitos atribuídos.
Todos os instrumentos possuem a mesma escala de análise, a saber:

Conceito Descrição
1 Quando os indicadores da dimensão avaliada configuram um conceito NÃO EXISTENTE.
2 Quando os indicadores da dimensão avaliada configuram um conceito INSUFICIENTE.
3 Quando os indicadores da dimensão avaliada configuram um conceito SUFICIENTE.
4 Quando os indicadores da dimensão avaliada configuram um conceito MUITO BOM/MUITO BEM.
5 Quando os indicadores da dimensão avaliada configuram um conceito EXCELENTE.

Os instrumentos deixam de se dividir por ato autorizativo com diferentes critérios de análise e mantêm-se um único conjunto de critérios de análise que passa a contemplar todos os atos a serem avaliados: Autorização, Reconhecimento e Renovação de Reconhecimento de curso.
A diferença na avaliação de distintos atos regulatórios se reflete na presença de nomenclaturas no texto dos critérios de análise. Estes critérios dispõem das expressões previsto/implantado e regulamentado/institucionalizado. As expressões previsto e regulamentado são consideradas para a avaliação do primeiro ato (Autorização de curso) e as expressões implantado e institucionalizado para os atos subseqüentes (Reconhecimento, Renovação de Reconhecimento de cursos e para os indicadores da dimensão infraestrutura no ato de autorização).
Cada indicador apresenta predominantemente um objeto de análise e a inclusão do critério Não Se Aplica (NSA) para as especificidades.
O resultado atribuído ao relatório (Conceito de Curso – CC) é a média ponderada dos conceitos gerados em cada dimensão, considerando seus pesos, conforme publicação nos respectivos extratos.
Os pesos por ato e dimensão são: Autorização de Curso (Organização Didático-Pedagógica – 30, Corpo Docente – 30 e Infraestrutura – 40); Reconhecimento e Renovação de Reconhecimento de Curso (Organização Didático-Pedagógica – 40, Corpo Docente – 30 e Infraestrutura – 30).
3. Do Período de Transição
Durante o período de transição dos instrumentos vigentes para os instrumentos reformulados serão observadas as seguintes regras:
a) todos os processos que estiverem na fase INEP/AVALIAÇÃO aguardando preenchimento de formulário eletrônico de avaliação (FE) terão seus formulários disponibilizados conforme os novos instrumentos.
b) os processos que possuem formulários de avaliação preenchidos nos instrumentos anteriores serão avaliados segundo os padrões estabelecidos nos instrumentos em que foram preenchidos. Portanto, não se adequarão aos instrumentos reformulados.
4. Das Considerações Finais
Em cumprimento a Portaria Normativa n°. 40, de 12 de dezembro de 2007, consolidada em 29 de dezembro de 2010, que atribui à Diretoria de Avaliação da Educação Superior – DAES/Inep as decisões sobre os procedimentos de avaliação e a responsabilidade de rever periodicamente os seus instrumentos e procedimentos de avaliação, esta diretoria torna pública a reformulação dos instrumentos, visando maior ajuste às diferentes realidades da Educação Superior no país.
Nessa perspectiva, os indicadores dos instrumentos e as alterações que se fizerem necessárias ao longo do processo avaliativo se darão de modo a atualizar tais indicadores com o intuito de democratizar esse processo, que deve contar com a participação da comunidade acadêmica. Em atividade conjunta – Inep e Conaes – realizarão Audiências Públicas para a apresentação dos instrumentos.
Diante de novas especificidades, os avaliadores que compõem o Banco de Avaliadores do Sinaes – BASis serão habilitados de acordo com os novos procedimentos.
Os instrumentos de avaliação estarão disponíveis na página do Inep para consulta pelas IES e demais interessados nos processos avaliativos do Sinaes.
Brasília, 01 de junho de 2011.
SUZANA SCHWERZ FUNGHETTO
Coordenadora-Geral de Avaliação dos Cursos de Graduação e Instituições do Ensino Superior
CGACGIES/DAES/Inep/MEC
CLÁUDIA MAFFINI GRIBOSKI
Diretora de Avaliação da Educação Superior
DAES/Inep/MEC

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A ENGENHARIA BRASILEIRA SE RECUPERA, MAS AINDA PRECISA DE OXIGÊNIO

junho 3rd, 2011

A ENGENHARIA BRASILEIRA SE RECUPERA, MAS AINDA PRECISA DE OXIGÊNIO
Em 2009 publicamos na Folha um artigo alertando que a falta de engenheiros no Brasil e, principalmente, de engenheiros qualificados, poderia representar um sério obstáculo às expectativas positivas de crescimento econômico.
A questão sensibilizou o segmento de Engenharia das instituições de ensino superior (IES), de vários órgãos privados, como a CNI (Confederação Nacional das Indústrias) e governamentais, principalmente a CAPES, que criou um grupo de trabalho especificamente para estudar estratégias de incentivo ao aumento dos diplomados em cursos de Engenharia que oferecessem melhor formação a seus estudantes.
As expectativas positivas de crescimento econômico e a divulgação de informações sobre a falta de engenheiros qualificados no mercado de trabalho fez com que os dados apresentados no Censo da Educação Superior de 2009 já reflitam uma evolução nas tendências de crescimento da Engenharia brasileira em relação ao Censo 2008.

Boa parte desta melhora se deveu ao aumento de vagas oferecidas pelo setor público e pela redução da evasão, tanto nas instituições públicas quanto nas privadas. A evasão anual nos cursos de Engenharia caiu de 23,2% para 16,6% de 2008 para 2009.
Se esta tendência se mantiver nos anos vindouros, é possível que a crise futura seja menor do que a prevista, embora seja preciso alertar que o risco ainda existe.
É previsível que o número de ingressantes nos cursos de engenharia não mantenha o crescimento observado nos últimos anos, porque a grande evasão no ensino básico faz com que o número de alunos que conclui o ensino médio, não só tenha permanecido praticamente constante nos últimos anos, como, em 2009, se igualasse às novas matrículas no ensino superior, cerca de um milhão e setecentos mil. A engenharia cresceu, portanto, porque outros cursos apresentaram queda no número de ingressantes, mas esse fenômeno atingirá certamente um limite no curto prazo.
O aumento no número de formados nos próximos anos dependerá mais de programas de redução da evasão dos alunos já matriculados do que de aumento das matrículas iniciais.
Diversos setores do Governo Federal e da iniciativa privada vêm discutindo a necessidade de criar programas claros de incentivo ao aumento de matrículas e de formados na área.
Os incentivos se fazem necessários pelas características dos cursos de Engenharia, de cinco anos de duração, custos elevados e exigência de grande dedicação por parte dos alunos. Iniciativas governamentais certamente estimulariam a iniciativa privada a seguir o mesmo caminho, potencializando os investimentos realizados.
A sociedade aguarda agora que estes programas sejam efetivados e comecem a dar frutos na mesma velocidade das necessidades de um país que quer tanto avançar mais.

Roberto Leal Lobo e Silva Filho, engenheiro e doutor em física, ex-reitor da USP, Presidente do Instituto Lobo e Diretor do ISITEC (Instituto Superior de Inovação e Tecnologia)

Publicado em Tendências e Debates, Folha de S. Paulo, 14/6/2011

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INDICES ANUAIS DE EVASÃO

maio 30th, 2011

ÍNDICES ANUAIS DE EVASÃO
O cálculo da evasão escolar pode ser feito de várias maneiras, cada uma delas tendo seu próprio significado.
Por exemplo, é possível acompanhar a vida de cada estudante ao longo de sua trajetória no curso, individualmente, estabelecendo-se uma estatística a posteriori sobre o tempo médio de titulação dos estudantes, os índices de evasão anual do curso ou da IES, do índice de reprovação, etc.
É a forma mais precisa e detalhada de se estabelecer os indicadores acadêmicos de um curso.
No entanto, nem sempre as trajetórias dos estudantes podem ser traçadas com este grau de detalhe. Por exemplo, se desejarmos obter informações sobre o fluxo acadêmico a partir de censos da educação, é preciso adotar critérios globais, ou macros, para o levantamento dos dados, como o número total de matrículas, número de ingressantes, concluintes, etc. É a que se chama estatística da coorte.
Isto significa que a informação será diferente da estatística da coorte, uma vez que, por exemplo, um aluno que saia e seja substituído por outro, via transferência, mantém o número de matrículas constante, na estatística global, mas a coorte indica a saída de um estudante e o ingresso de outro.
Na média, a estatística global, por ser a única amplamente disponível, oferece indicadores que refletem a situação aproximada dos fluxos acadêmicos. É, no entanto, preciso definir com clareza as expressões para o cálculo de indicadores, e aceitar que são aproximações da realidade.
Para utilizar indicadores globais, defini-se, por exemplo, a tava de conclusão de curso com a relação entre os concluintes em um determinado ano e os ingressantes correspondentes ao em que um estudante que concluísse o curso no ano em questão sem repetições nem saltos teria ingressado no curso. Em um curso de quatro anos, T=C(n) /I(n-3).
Da mesma forma, a evasão anual está ligada à relação entre os estudantes que se matricularam e os que poderiam se rematricular no curso em um determinado ano.
Quem dos alunos poderia se rematricular no ano seguinte? Os matriculados no ano em questão menos os concluintes neste ano: M(possíveis) = M(n)-C(n) (número de matriculados no ano n menos o número de concluintes naquele ano. Quem dos veteranos efetivamente se matriculou? A resposta é semelhante: M(reais) = M(n+1)-I(n+1) (número de matriculados no ano n+1 menos o número de ingressantes naquele ano). A evasão anual é: dada por Evasão = 1- [M(n+1)-I(n+1)]/[M(n)-C(n)] (como fração. Para calcular em porcentagens, multiplicar por 100).
Não há dúvidas quanto ao número de matrículas e de concluintes. No entanto, no que diz respeito à subtração do número de ingressantes, há vários casos a considerar:
1. Toma-se o total de ingressantes, que se matricularam por processos seletivos, por transferência de IES ou por transferência de cursos em uma mesma IES, por outros processos, como transferência ex-officio. É o que se chama de evasão anual, mas na verdade, é a evasão anual média por curso, EC.
2. Exclui-se da contagem de ingressantes os que mudaram de curso, mas permaneceram na IES. É a evasão média por IES, EIES.
3. Exclui-se, adicionalmente, os que se transferiram de IES. Estes alunos se afastaram do sistema de ensino correspondente. É a evasão média do sistema, ES. No caso do ensino superior, é o percentual de estudantes que abandonaram seus estudos universitários naquele ano. Em alguns casos, o estudante não pede transferência e se submete a novo processo seletivo. Neste caso ele também é considerado como tendo abandonado o sistema, por não haver informação detalhada sobre estes casos.
Considerando dados do período 2007-2008, obtém-se para a evasão média anual do ensino superior do Brasil:
1. EC=22,2% (abandonaram seus cursos)
2. EIES=20,3% (abandonaram suas IES)
3. ES=17,7% (abandonaram o ensino superior, alguns podendo ter retornado por meio de novo processo seletivo).

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abril 11th, 2011

Na edição de 29/03/2011 da Folha de São Paulo, Bill Clinton afirmou corretamente que a limitação do Brasil no médio prazo será a educação. “O Brasil é um dos primeiros países, em seu nível de renda per capita, a universalizar o ensino fundamental com o programa Bolsa Escola. Então, o que vocês precisam é universalizar o ensino médio e garantir que esses alunos estejam preparados para o vestibular”, disse o ex-presidente americano. Confirmando suas impressões, em 2009 entraram no ensino superior 1.732.613 estudantes e se formaram no ensino médio 1.797.434 (com cerca de 50% de evasão ao longo do curso). Essa enorme evasão transformou o ensino médio brasileiro em um dos grandes limitadores de nossa capacidade de formar profissionais tanto de nível médio quanto superior e uma barreira ao nosso desenvolvimento.

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A INTELIGÊNCIA DE UMA NAÇÃO

abril 8th, 2011

A inteligência de uma nação

Roberto Leal Lobo e Silva Filho*

A capacidade de um indivíduo resolver problemas ou se posicionar corretamente diante de novos desafios é o que se chama de inteligência e geralmente não é distribuída igualmente entre todas as áreas de atividades, sendo mais pronunciada em umas do que em outras, segundo Howard Gardner, que em seus estudos definiu sete tipos básicos de inteligência.
Da mesma forma, a capacidade de um país resolver problemas ou se posicionar corretamente diante de novos desafios é a inteligência de uma nação.
Sabe-se que a inteligência de uma pessoa depende de fatores genéticos e ambientais (onde se situam, com relevância, os fatores culturais). Os fatores genéticos são razoavelmente aleatórios, porque dependem das combinações aleatórias dos genes dos pais, que as herdaram dos avós, e assim por diante, podendo sofrer mutações e erros de cópias de trechos de DNA’s.
A etnia e o sexo não se mostram como fatores relevantes em experiências que foram conduzidas com os necessários cuidados para isolar corretamente essas variáveis. Por outro lado, os fatores ambientais se mostram cada vez mais importantes em relação aos fatores genéticos, porque se pode atuar sobre eles. Seu principal componente é a educação.
Nos Estados Unidos, onde a maioria das estatísticas sobre a inteligência vem sendo compilada, o índice de QI (que mede as inteligências linguística, lógico-matemática e espacial) para populações como a judia e a asiática, demonstra que os judeus têm resultados nos testes de inteligência de quase um desvio padrão acima da população branca, em geral. Da mesma forma, os jovens de origem asiática ficaram quase um desvio padrão acima da média americana nos exames de conhecimentos.
Parece haver aí uma contradição: seria a etnia, então, o fator mais importante? A resposta é não!
Estes resultados são uma demonstração de que a valorização da educação no lar e na escola faz toda a diferença e estes povos têm esta tradição. Está provado que crianças de origem modesta que tinham QIs bastantes inferiores têm grande aumento de desempenho nos testes quando criadas em ambientes mais cultos e exigentes. Muito mais que a genética, é a cultura de um povo que faz a diferença.
O esforço, a autodisciplina e a combinação da educação formal e da informal (uma criança de família culta ouve em casa 50% mais palavras do que a de uma de família comum) são os principais fatores para a elevação das inteligências.
Estudos recentes sobre desempenhos excepcionais em qualquer área, científica, artística, cultural ou esportiva identificaram que eles dependem de muito trabalho, cerca de 10.000 horas ao longo de 10 anos junto a um bom professor nos anos iniciais, que seja caracterizado pela modéstia e firmeza de caráter, que não acolha o erro sem reação e que estimule mais do que repreenda.
Resultados das neurociências indicam que o estudo sistemático, prolongado e executado com seriedade “pavimenta” vias preferenciais nas ligações neuronais, criando um depósito de uma substância gordurosa, a mielina, capaz de assegurar a repetição perfeita do percurso do estímulo nervoso e a rapidez na transmissão, que pode chegar a 100 vezes a do tempo normal de pessoas que não tiveram esse mesmo percurso de aprendizado. O cérebro de Albert Einstein, que era de volume nada excepcional, tinha, no entanto, camadas de mielina muito acima do comum.
Em nosso País, perdemos as referências. Escolas como o excelente Pedro II não existem mais como paradigmas do ensino. A disciplina e o esforço de professores e alunos não são valorizados. Estamos aumentando nossa sensibilidade para os deficientes físicos e mentais, o que é muito bom, mas temos diminuído a nossa sensibilidade para a excelência – o sucesso é mal visto por aqui.
Precisamos aprender com povos que tiveram sucesso na educação de sua juventude, alcançando resultados imprevisíveis para as circunstâncias (por vezes bem desfavoráveis), em que se encontravam. Talvez por isso, valorizam a educação como fator de sobrevivência! (tiraria a exclamação) Ela também será o fator essencial para sermos um país bem sucedido e realmente democrático, no sentido de oferecer iguais oportunidades para todos! (tiraria a exclamação)
*Roberto Leal Lobo e Silva Filho, Doutor em física, Professor Titular aposentado do IFSC (USP), ex-Reitor da USP e Presidente do Instituto Lobo Para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Tecnologia.

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EAD 2001 – 2009

abril 8th, 2011

A educação a distância cresceu 49.778,83%, de 2000 a 2009, mantendo o patamar de crescimento anual em torno de 80% desde a sua regulamentação, em 2005, até 2008, entretanto, apesar do contínuo aumento do número de cursos, o número de matrículas cresceu apenas 15,25% de 2008 para 2009. Este fato se deve às novas regras impostas ao ensino de graduação a distância, que resultou em uma redução significativa do crescimento das matrículas privadas nesta modalidade.

MATRÍCULAS EAD
ANO PERCENTUAL DE CRESCIMENTO
2001 218,61%
2002 659,73%
2003 22,59%
2004 19,43%
2005 92,32%
2006 80,74%
2007 78,45%
2008 96,87%
2009 15,25%

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